52% querem comprar imóvel, mas só 4% estão visitando
20 de outubro de 2026 · 4 min de leitura
A intenção de compra de imóveis no Brasil chegou a 52% no segundo trimestre de 2026 — o nível mais alto da série, três pontos percentuais acima do mesmo período de 2025. É mais da metade dos entrevistados dizendo que pretende comprar um imóvel nos próximos 24 meses.
O número parece ótimo. Mas é a decomposição dele que interessa a quem precisa vender, e ela raramente aparece nas manchetes.
Dos 52%, só 4% saíram de casa
A mesma pesquisa separa quem declarou intenção de compra por estágio:
Situação declarada | % dos entrevistados |
|---|---|
Não pretende comprar neste período | 48% |
Pretende comprar, mas ainda não iniciou a busca | 38% |
Pretende comprar e já busca online | 10% |
Pretende comprar e já visita imóveis | 4% |
Ou seja: de cada 100 pessoas, 52 dizem que querem comprar, 14 estão de fato procurando e apenas 4 estão visitando imóvel. A pesquisa chama esses 4% de intenção de compra ativa, e esse indicador caiu em relação ao semestre anterior — está no mesmo patamar de 2025.
É o dado mais honesto do relatório. Intenção declarada e intenção com agenda marcada são coisas diferentes, e a distância entre as duas é de treze para um.
Por que isso importa para quem está vendendo
Já vi gente ler "52% querem comprar" e concluir que o imóvel vai vender sozinho. Não vai.
Existência de demanda e velocidade de venda são indicadores distintos. Os 38% que pretendem comprar e ainda não começaram a busca são demanda real — só que sem data. Podem levar dois anos, ou podem nunca sair do lugar, a depender de crédito, preço, condições de pagamento e de o produto fazer sentido para o bolso de quem procura.
Quem compra o seu imóvel este ano está dentro dos 4%. É um público pequeno, disputado, e que já está vendo outras opções.
O Sul não está seguindo o Brasil
Aqui está o número que eu acho mais relevante para quem olha o litoral catarinense, e que o resumo nacional esconde.
2º trimestre de 2026, contra 2025 | Sul | Brasil |
|---|---|---|
Unidades lançadas | −25,1% | −1,3% |
Unidades vendidas | +0,2% | +5,3% |
Oferta final disponível | +0,6% | +8,2% |
O Sul lançou um quarto a menos de unidades e vendeu praticamente o mesmo volume do ano passado. O resultado é que o estoque ficou parado: cresceu 0,6%, contra 8,2% no país.
São dois cenários opostos. No Brasil, a oferta cresceu mais rápido que as vendas — estoque se acumulando. No Sul, a oferta nova encolheu e a absorção se manteve.
A amostra da pesquisa inclui Balneário Camboriú, Itapema, Porto Belo, Bombinhas, Itajaí, Camboriú e Tijucas, então estamos falando do mercado em que eu trabalho, e não de uma média distante.
O ticket médio caiu 22,6%, e não é porque o imóvel barateou
O valor médio da unidade lançada no país passou de R$ 751.920 para R$ 581.896 em um ano — queda de 22,6%.
Isso não significa que o mesmo apartamento ficou mais barato. Significa que mudou o que está sendo lançado. No segundo trimestre, das 107.161 unidades lançadas no Brasil, 62.129 eram Minha Casa, Minha Vida — 58% do total. O programa puxa a média para baixo porque domina o volume.
Para quem acompanha o alto padrão, a leitura é outra: o mercado está produzindo cada vez mais unidade de entrada, e o número agregado passa a dizer pouco sobre o segmento em que você está. Média nacional de ticket deixou de ser referência para quem compra frente-mar.
O crédito está disponível
As concessões do SBPE para aquisição e construção somaram R$ 93,7 bilhões no primeiro semestre de 2026, contra R$ 72,9 bilhões no mesmo período de 2025 — alta de 29%. Só a parcela de aquisição subiu 12%.
É um contrapeso importante aos 38% parados: dinheiro para financiar existe e cresceu. O que trava a conversão, na maior parte dos casos que eu acompanho, não é a falta de crédito — é a decisão.
O que eu faço com esses números
Pesquisa de mercado não decide compra. Serve para três coisas, e eu uso as três:
Calibrar expectativa de prazo. Com 4% de intenção ativa, quem anuncia esperando fila na porta se frustra. Quem entende que está disputando um público pequeno trabalha diferente — e vende.
Separar o meu mercado da média. Oferta encolhendo 25% no Sul, com absorção estável, é um quadro distinto do estoque crescendo no país. Quem decide pelo número nacional decide pelo mercado errado.
Checar o produto contra o comprador. Se 58% do que se lança no Brasil é MCMV, o que falta — e o que sobra — no segmento de alto padrão do litoral é uma conta que se faz empreendimento por empreendimento, não por média.
É por isso que eu não trabalho com lista de ofertas. Antes de indicar unidade, eu quero saber o número que a pessoa tem, o objetivo dela e o prazo. Os outros 48% não são meu problema.
Fontes
Indicadores Imobiliários Nacionais, 2º trimestre de 2026, divulgado em 24 de agosto de 2026. Fonte dos dados: CBIC/CII. Elaboração: Brain Inteligência Estratégica. Os dados de intenção de compra são da mesma publicação.
O próximo passo
Os números das três cidades onde eu trabalho — Porto Belo, Itapema e Balneário Camboriú — estão reunidos na minha análise de mercado, com o recorte que a média nacional não dá.
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