Masterplan Perequê 2022–2032: o que o plano prevê
19 de junho de 2024 · 6 min de leitura
Material de lançamento imobiliário costuma abrir dizendo que a região é um paraíso. O Masterplan Perequê 2022–2032, o documento oficial que orienta o desenvolvimento do bairro pelos próximos dez anos, faz o contrário: ele começa dizendo o que está errado.
E é justamente por isso que eu levo esse documento a sério.
Um plano que começa listando os próprios defeitos
O que o plano admite sobre o Perequê de hoje:
A praia tem problema de balneabilidade. O Rio Perequê chega ao mar poluído, com esgoto a céu aberto, e isso torna trechos impróprios para banho.
O bairro tem identidade dissociada de Porto Belo. Não há ponto turístico marcante, e o urbanismo repete o modelo dos balneários vizinhos — o documento usa a expressão "identidade genérica".
A infraestrutura urbana é deficiente: poucas conexões viárias, falta de arborização, e um ambiente construído para o carro, não para quem anda a pé.
Falta centralidade de comércio e serviço. O Perequê depende de Itapema e do centro de Porto Belo para o que deveria resolver dentro dele.
Há ocupações irregulares no interior do bairro.
Falta mão de obra qualificada, o que trava serviço de padrão mais alto e afasta investimento de maior valor agregado.
Nenhum folheto diz isso. Um plano sério diz — porque é a partir daí que ele propõe o que propõe.
Os quatro pilares do plano
1. Construir uma identidade própria. O plano prevê uma marca-cidade, submarcas para localidades e atrativos, e um guia de identidade visual. A matéria-prima para isso são os 300 anos de história local e o potencial náutico da enseada — que, segundo o próprio documento, nunca foi explorado no material de divulgação da região.
2. Pôr as pessoas na frente do carro. Aqui o plano se apoia em duas referências de urbanismo contemporâneo:
a "Cidade 15 minutos" — a ideia de que o morador resolva o essencial a quinze minutos de casa, a pé ou de bicicleta;
as "Zonas Azuis" (Blue Zones) — regiões do mundo onde as pessoas vivem muito mais e melhor, passando dos 100 anos com saúde, lucidez e baixo índice de doença crônica. O plano não promete transformar o Perequê numa dessas regiões; ele usa o conceito como referência de desenho urbano, ao propor ciclovia, calçada ampla e arborizada e "ruas completas".
Faço questão dessa distinção porque ela se perde fácil: Zona Azul é um conceito demográfico, não um selo que uma cidade requer. O selo que o plano de fato persegue é outro, e está mais abaixo.
3. Desenvolvimento econômico com endereço definido. O plano reserva uma faixa para atividades de grande porte nas margens da BR-101 — indústria limpa, logística e comércio atacadista —, mirando emprego qualificado longe da orla. E persegue turismo 365 dias por ano, com evento fora da temporada e gastronomia de ingrediente local, para a economia não viver de três meses de verão.
4. Refazer o espaço urbano. É a parte mais visível:
requalificação da orla da praia, com parque, área verde e espaço de convívio
revitalização do Rio Perequê, com um riverfront de marinas, comércio e lazer
vias coletoras transformadas em ruas comerciais, e vias locais em boulevards
uma nova ponte sobre o Rio Perequê, projetada como elemento icônico e alta o bastante para embarcação de maior porte passar por baixo
recuperação ambiental da Lagoa do Perequê, integrada ao saneamento do rio
incentivo a edifício com fachada 360°, reaproveitamento de água e energia limpa
A praia, e o selo que está realmente em jogo
O selo que o Masterplan persegue é a Bandeira Azul (Blue Flag) — certificação internacional que atesta qualidade da água, gestão ambiental, segurança e educação ambiental numa praia.
Para chegar lá, o plano prevê duas obras ligadas: o alargamento da faixa de areia e os molhes na barra dos rios Perequê e Perequezinho, cuja função é impedir que a água poluída do rio entre na área de banho.
E esta parte já saiu do papel. As estruturas principais avançaram por meio de parcerias público-privadas entre a Prefeitura de Porto Belo e a ACIP (Associação de Construtoras e Incorporadoras de Porto Belo). No entorno houve dragagem e preparação de áreas para as futuras marinas, além do planejamento de paisagismo, calçadão, ciclovia e áreas de convivência.
E o resultado já aparece na medição oficial. No boletim de balneabilidade do IMA publicado em 16 de outubro de 2026, com coleta de 13 de outubro, os três pontos da Praia de Perequê estavam próprios para banho:
Ponto de coleta na Praia de Perequê | Situação |
|---|---|
Av. Senador Atílio Fontana, 266 — foz do Rio Perequizinho | Própria |
Final da Rua Rubens Alves, ao lado do Posto de Guarda-Vidas | Própria |
Em frente à Av. Almirante Fonseca Neves | Própria |
Fonte: boletim de balneabilidade do IMA, publicado em 16/10/2026, com coleta de 13/10/2026.
Repare no primeiro: ele fica na foz do Rio Perequizinho, que é exatamente o ponto onde o molhe foi construído e onde o problema era maior. É o ponto que mais interessava, e ele está próprio.
Sejamos precisos sobre o que isso prova: um boletim não demonstra sozinho que a melhora veio da obra. Balneabilidade varia com chuva, maré e época do ano, e seria preciso uma série histórica para atribuir causa. Mas é o dado que existe, é medido por órgão oficial, e vai na direção do que a obra se propôs a fazer.
É o ponto em que o plano deixa de ser papel. E é o que eu olho primeiro quando alguém me pergunta se vale comprar ali.
O que um plano desses muda para quem investe — e o que não muda
Muda: plano diretor define o que pode ser construído, onde e com que altura. Isso mexe em valor de terreno antes de qualquer obra começar, porque muda o que cabe naquele terreno. Quem comprou na Costa do Perequê antes da revisão do plano comprou outro ativo.
Não muda: plano de dez anos é intenção, não cronograma. O próprio documento diz que depende de poder público, iniciativa privada e comunidade agindo juntos — e lista problemas, como saneamento e qualificação de mão de obra, que não se resolvem com obra de orla.
Então o que eu digo a quem me procura é isto: quem compra hoje no Perequê compra a aposta no plano, não o resultado dele. A diferença entre uma aposta boa e uma ruim está em quanto já saiu do papel — e, nesse quesito, os molhes mudaram a conversa.
Para ir mais fundo
O que está sendo construído no resto da cidade, fora do Perequê, está em Obras em Porto Belo: o que está mudando fora do Perequê.
Os números da cidade — população, PIB e preço do m² por quadra — estão em Investir em Porto Belo: o que os números da cidade mostram.
O próximo passo
Reuni o que eu tenho sobre a região num material só: mercado, bairros, perfil de comprador e o que eu analiso antes de indicar uma unidade.
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Alexandre Rorato — Consultor de Investimentos Imobiliários · CRECI 52923 · CNAI 4241
Fonte: Masterplan Perequê 2022–2032.

